Serão 10 artistas internacionais que se apresentarão no Festival MED26 em Loulé. Conheça a história de mais alguns deles.
Bohemian Betyars
Há bandas que transformam o caos em celebração e os Bohemian Betyars são a prova viva disso. Nascidos em 2009, em Miskolc, no nordeste húngaro, este sexteto tornou-se sinónimo de energia contagiante, humor irreverente e uma sonoridade que atravessa fronteiras.
O seu nome, que junta o espírito livre “boémio” ao termo húngaro betyár (fora da lei, o vagabundo nobre que recusa a ordem estabelecida), imprime-lhes um manifesto: viver e tocar sem amarras, num eterno convite à dança e à resistência alegre, recuperando a festa dos Balcãs e das aldeias ciganas, com atrevimento punk.
Desde cedo, cruzaram caminhos com o ska dos anos noventa, o punk rock centro-europeu e a vertigem balcânica popularizada por nomes como Goran Bregović, Emir Kusturica, Fanfare Ciocărlia, Gogol Bordello ou Dubioza Kolektiv. Mas os Betyars têm algo de único: uma relação espontânea entre o caos e a precisão musical. As suas canções transitam entre a euforia das fanfarras, o balanço cigano, o deboche da festa ska e o lirismo melancólico dos violinos da planície austro-húngara. Descrita muitas vezes como speed-folk freak-punk, a música dos Bohemian Betyars reconcilia tradição e modernidade num abraço turbulento. É música de viagem e de desenraizamento, memória e futuro ao mesmo tempo.
Os temas, muitas vezes cantados em húngaro, evocam bailes rurais, amores desavergonhados e um certo espírito libertário que sempre acompanhou as margens da cultura centro-europeia.
Num espetáculo que é tão intenso quanto teatral, figurinos coloridos, coreografias improvisadas e uma energia que parece alimentar-se diretamente da multidão, o público não assiste, participa. E quando os sopros começam a galgar o compasso, o concerto transforma-se num ritual coletivo de alegria anárquica.
No MED, os Betyars mostram que continuar a dançar é uma forma de resistência e que a festa pode ser, também, uma arma política.
Salif Keita
Na constelação da música africana contemporânea, poucos nomes brilham com a intensidade de Salif Keita. Chamado tantas vezes de a voz de ouro de África, o cantor maliano transcendeu fronteiras culturais e linguísticas, levando o som quente e espiritual do Mali a palcos de todos os continentes. Entre o griot e o trovador moderno, Keita construiu uma ponte entre a tradição mandinga e o mundo global, desafiando limites e preconceitos através da arte.
Nascido em 1949 na aldeia de Djoliba, Salif Keita carrega nas veias o sangue real do Império do Mali, descendente direto de Sundiata Keita, o lendário fundador da nação. Mas o seu nascimento foi marcado por um estigma: o albinismo, que na cultura tradicional mandinga era visto como sinal de infortúnio. Rejeitado pela sua própria comunidade, o jovem Salif encontrou na música, ironicamente, uma vocação tabu para alguém de origem nobre: o caminho da redenção. Essa contradição entre exclusão e herança tornou-se o motor poético e espiritual da sua vida.
A sua jornada artística começa nos anos 1970 com Les Ambassadeurs Internationaux, o mítico grupo de Bamaco que marcou uma geração e projetou o Mali moderno. Em 1984, partiu para Paris, onde o mundo o esperava. Três anos depois, com o álbum Soro, Keita afirma-se como voz maior do continente, cruzando raízes africanas com jazz, funk e pop eletrónica. Desde então, o seu percurso é um verdadeiro mapa de encontros: Cesária Évora, Carlos Santana, Wayne Shorter, Joe Zawinul, Angélique Kidjo, Youssou N’Dour. Colaborou com todos, sempre em nome de uma mestiçagem sonora generosa e sem fronteiras.
Em 2025, Salif Keita surpreendeu o mundo com So Kono (“no quarto” em língua mandinga), um disco gravado num quarto de hotel em Quioto, de regresso às origens e, ao mesmo tempo, de reinvenção. O álbum abraça uma estética acústica mais orgânica e espiritual. Se antes a sua música era feita de travessias elétricas, agora ecoa como um ritual íntimo, uma celebração da fragilidade humana e da sabedoria conquistada em mais de cinco décadas de palco. So Kono é, de certo modo, o testamento sonoro de um mestre que aprendeu a transformar a dor em luz.
Ao MED, Salif Keita traz consigo não apenas as canções do seu último trabalho, mas toda uma história de resiliência, beleza e pertença. A sua voz continua a soar com uma pureza hipnótica, feita de areia e ouro. Ao vivo, Keita não canta apenas, ele convoca espíritos, memórias e esperanças, guiando o público por territórios invisíveis onde a diferença é cantada como bênção.
Seun Kuti & Egypt 80
Há quem confunda os termos afrobeat e afrobeats e o esclarecimento é importante, sobretudo quando falamos de Seun Kuti. O afrobeat, criado por Fela Kuti na Lagos dos anos 70, é um género potente e expansivo: mistura de ritmos iorubás, jazz, funk, soul e uma coragem política sem receio. Cada tema era manifesto, cada sopro, uma faísca de revolta. Já o afrobeats (no plural), que domina hoje as pistas urbanas de Lagos a Londres, é um movimento mais pop e eletrónico, nascido de uma descendência estética, mas com menos carga militante. Seun Kuti permanece fiel ao primeiro. O afrobeat original, o corpo e o nervo de uma África que pensa, dança e resiste.
Seun Anikulapo Kuti nasceu em 1983, em Lagos. Filho mais novo do lendário Fela Kuti e da militante e performer Fehintola Anikulapo Kuti. Cresceu literalmente dentro do palco e dos ensaios do Shrine, o lendário quartel-general da orquestra Egypt 80, onde aprendeu cedo que música e política podiam falar a mesma língua. Aos nove anos já acompanhava o pai em digressões; aos catorze, depois da morte de Fela, assumiu a liderança da banda. Um gesto quase mítico de continuidade.
Desde então, Seun Kuti tem percorrido o mundo com uma energia visceral. Dos primeiros álbuns Many Things (2008) e From Africa with Fury: Rise (2011, produzido por Brian Eno) até a Black Times (2018), ergue uma ponte entre a Nigéria contemporânea e o legado do pai, acrescentando-lhe urgência e fogo próprios. Influenciado pelo jazz insurgente de Coltrane, pelo groove político de James Brown e pela poesia de resistência de artistas africanos modernos, Seun cultiva um som que não se limita à homenagem. É reinvenção viva.
No comando da Egypt 80, a banda de metais implacáveis e percussões que nunca adormece, Seun Kuti mantém o ADN do afrobeat: a extensa construção rítmica, a hipnose repetitiva, o discurso social no centro da dança. Mas há também espaço para reaggae, spoken word e improvisação jazzística. Cada concerto é um rito de libertação. O legado de Fela percorre o palco, mas Seun habita-o como um líder novo: feroz, eletrizante, profundamente contemporâneo.
15 anos depois, o MED revê um furacão de energia que arrasta a orquestra e o público para uma celebração de liberdade africana e universal.
Tiken Jah Fakoli

Há quem cante para entreter, e há quem cante para despertar. Tiken Jah Fakoli é de uma linhagem antiga, a dos griots, os guardiões da memória africana. Como eles, não se limita a contar histórias: transmite saber, esperança e resistência. A sua música é crónica e manifesto, descrevendo a vida quotidiana e denunciando as injustiças que persistem entre os povos. Num continente onde a palavra sempre foi poder, Tiken ergue-se como um arauto de consciência política e social, herdeiro de uma tradição oral que, através do reggae, encontra nova força e alcance global.
Nascido Doumbia Moussa Fakoly, em 1968, na pequena cidade de Odienné, noroeste da Costa do Marfim, cresceu a ouvir a cadência dos tambores e as histórias dos anciãos. Esses ritmos e narrativas formaram-lhe o espírito crítico e o sentido de pertença. Jovem ainda, foi testemunha de tensões étnicas e desigualdades gritantes, e percebeu cedo que a música podia ser uma ferramenta de união e denúncia.
O percurso musical de Tiken Jah Fakoli é um mapa da África moderna: das ruas de Abidjan à diáspora em Bamaco, Paris ou Montréal, cada etapa reflete encontros e transformações. Inspirado por ícones jamaicanos como Peter Tosh e Burning Spear, mas enraizado em tradições mandingas, criou um reggae de identidade africana, impregnado de corás, ngonis e percussões tribais. A partir do álbum Mangercratie (1996), a sua voz tornou-se referência continental. Seguiram-se trabalhos como Françafrique (2002) e African Revolution (2010), onde conjuga crítica política e espiritualidade, sempre com swing irresistível e letras que ressoam como sermões laicos.
A identidade sonora de Tiken Jah Fakoli é uma ponte entre mundos: o reggae raiz jamaicano e o pulso ancestral da África Ocidental. Nele encontramos o legado espiritual de Bob Marley, mas reinterpretado segundo a geografia e a luta africanas. Se Marley proclamava “One Love” como um apelo universal, Tiken acrescenta-lhe um contexto e uma urgência: “Um amor, sim, mas também justiça e verdade.” Na sua música, o baixo grave é bússola, a voz é chama, e as palavras são armas pacíficas. Como Marley, acredita no poder transformador da canção e na responsabilidade do artista para com o seu povo.
Num tempo em que o ruído frequentemente abafa a verdade, ver Tiken Jah Fakoli em palco é um gesto de lucidez. Porque ele lembra-nos que dançar pode ser também um ato político, e que a alegria não é fuga. É resistência. O seu reggae não anestesia, desperta.
Calle Mambo
Calle Mambo surgiram em 2013 nas ruas geladas de Munique, quando músicos chilenos, como o cantor Jhon Valle, o guitarrista Erkki Nylund, Guillaume Laumière no charango e Jankely Felix na percussão, se reuniram para tocar na rua. Músicos migrantes que buscam sustento e pertença ao mesmo tempo. O nome surgiu como uma piada: “mambo na calle”, capturando o espírito espontâneo e de rua que os define desde o início.
O ponto de partida, é a riqueza descomunal das músicas populares latino-americanas. Não apenas as mais conhecidas internacionalmente, mas as que a globalização foi empurrando para as margens: o huayno dos Andes peruanos, o caporal boliviano, a timba cubana, a cumbia colombiana e chilena nos seus muitos dialetos. É sobre estas raízes que Calle Mambo funde a eletrónica, o rap, os beats contemporâneos, e o resultado é o que a banda batizou de folklor electro-urbano: uma linguagem que faz a ponte entre gerações sem trair nenhuma delas.
Inspirados em pioneiros como Celso Piña, que revolucionou a cumbia com hip-hop e energia roqueira, gravaram álbuns como o homónimo de 2015, Electro Pachamámico (2020) e o recente Retumba la Tierra (2025).
O arsenal instrumental é, por si só, uma declaração de intenções. Em palco, Calle Mambo interpreta mais de dez instrumentos, como quena, quenacho, charango, ronroco, zampoña, gaita colombiana, cuatro venezuelano, tiple, timbales, sintetizadores e percussão eletrónica. Cada peça é uma viagem que parte dos Andes e chega à pista de dança. As letras não ficam aquém do som. Falam de migração forçada, de destruição de ecossistemas, de opressão e de resiliência.
Os Calle Mambo chegam ao MED com o fôlego de uma banda em contínua digressão e com o repertório mais maduro da sua trajetória, com a energia de quem tem urgência em comunicar, não apenas ritmos, mas memórias, territórios e identidades que resistem ao esquecimento.
Los Van Van
Em 1969, o som das ruas de Havana pulsava entre a tradição e a esperança. Juan Formell, que passara pela Orquesta Revé, ambiciona criar uma orquestra que traduza a vida quotidiana cubana em música. Inspirou-se na charanga clássica formada por flauta, violinos e uma secção rítmica leve, mas adicionou também baixo elétrico, bateria e teclados. O resultado? Um híbrido irresistível: a charanga moderna, que transformou o panorama musical da ilha. O próprio nome “Van Van” ecoava o lema popular da época “¡Vamos a andar!”. Símbolo de movimento, progresso e vitalidade inspirado nas iconográficas camionetas soviéticas “van” dessa época.
Desde os anos 70, Los Van Van tornaram-se muito mais do que uma banda: passaram a ser uma instituição nacional e um fenómeno transcontinental. Foram pioneiros do songo, género que misturou o sabor tradicional com o pulso elétrico doa pop, do funk e do jazz.
Os arranjos de Juan Formell e do seu carismático trombonista Pupy Pedroso, aliados às vozes ásperas e cheias de “calle” de Pedro Calvo, Mayito Rivera e tantos outros, definiram uma identidade sonora que influenciou orquestras e salseros de todo o mundo. Dos NG La Banda aos Irakere. Em Nova Iorque e em Cali, músicos de salsa admitem que Los Van Van mudaram a gramática da música dançável latino-americana.
Em 2014, após o falecimento de Juan Formell, o filho Juan que já era diretor musical de Los Van Van há uma década, pega na batuta da orquestra e moderniza-a sem perder o balanço genuíno, incorporando samplers discretos, harmonias mais pop, e uma energia que transforma o palco em pista de baile universal.
Los Van Van são uma orquestra que não repousa sobre o passado. Têm o dom raro de soar a clássico e a futuro ao mesmo tempo. Vê-los no MED é assistir à memória viva de Cuba com corpo inteiro. É sentir o pulsar de Havana, o rumor do Caribe e o ADN do groove latino passado de pai para filho.
Bonga
Quando Bonga se fez ouvir, Angola era ainda uma nação a lutar por se reconhecer livre. As suas canções ecoavam no coração de quem sonhava o fim da colonização e o nascimento de uma identidade própria. Cantava o semba quando este já era uma forma de resistência: ritmo mestiço, raiz afro-lusófona, corpo e palavra em movimento. Num tempo em que a música era também arma e refúgio, Bonga ergueu a voz como símbolo de unidade e libertação. Foi perseguido, exilado, mas nunca silenciado. O seu canto correu de Luanda a Lisboa e daí ao mundo, levando a memória de um povo.
Nascido José Adelino Barceló de Carvalho, em Kipiri, nos arredores de Catumbela, em 1942, Bonga cresceu entre os batuques de Angola e os discos que chegavam do outro lado do Atlântico. Antes de ser músico, foi atleta de alta competição e chegou a representar Portugal nos 400 metros. Mas quando o vento da mudança começou a soprar em África, trocou o nome de corredor pelo nome de mensageiro: Bonga Kuenda. Ou seja, “aquele que atravessa fronteiras a correr”. A partir daí, correu, sim, mas atrás da liberdade. Bonga partiu para Holanda, para França, para o exílio que tantos conheceram e poucos souberam transformar em obra.
Instalado na Europa nos anos 70, Bonga tornou-se voz-chave da diáspora angolana. O seu álbum de estreia, Angola 72, fundiu guitarras acústicas e reco-recos, saxofone e melancolia, e deu ao semba um novo horizonte: urbano, poético, universal. Influenciado por Liceu Vieira Dias, Rui Mingas, pela morna e pelo fado, reinventou o semba como linguagem híbrida, entre o lamento e o convite à dança.
Ao longo de mais de cinco décadas, construiu uma obra que é também um arquivo: das influências do batuque e da rebita ao diálogo com o jazz e com a música cabo-verdiana, da língua kimbundu, que insiste em cantar. Nas suas canções moram histórias de pescadores, de mulheres que esperam, de crianças que crescem depressa demais, de um continente que o Ocidente teima em não ouvir com a devida atenção. A voz de Bonga é inconfundível: rouca, terrosa, quase ancestral. Transporta o sal das estradas de terra e a doçura dos quintais de Luanda.
Aos 84 anos, com mais de meio século de canções e resistências, Bonga regressa ao MED, 8 anos depois, com a mesma força de outrora.


