Serão 10 artistas internacionais que se apresentarão no Festival MED26 em Loulé. Conheça a história de alguns deles.
Goran Bregović
Nascido em 1950 em Sarajevo, no coração dos Balcãs, Goran Bregović cresceu entre o caos da ex-Jugoslávia e o fervor das suas ruas multiculturais. Filho de um croata católico e de uma sérvia ortodoxa, aprendeu guitarra com o avô cigano. Desenvolveu a sua dieta musical entre as chamas de casamentos e cafés onde se misturavam sérvios, croatas, judeus sefarditas e ciganos. Afinal, como refere Bregović, “a música é a única pátria que nunca se desintegrou.”
Começou pelo rock. Nos anos 70, foi o rosto dos Bijelo Dugme, a banda mais popular da Jugoslávia que enchia estádios. Mas Bregović ouvia outra coisa por baixo do amplificador: os metais das festas de casamentos nos bairros de Sarajevo, os coros femininos que chegavam de aldeias búlgaras como se viessem de outro século, o violino cigano que não pede autorização para entrar em nenhuma sala. Quando o realizador Emir Kusturica o convidou para compor a banda sonora de O Tempo dos Ciganos, em 1988, Bregović não hesitou — e ao fazê-lo encontrou a linguagem que procurava sem o saber. Arizona Dream, Underground, A Rainha Margot: o cinema tornou-se o laboratório onde percebeu que a sua música precisava de espaço épico, de cerimónia, de canções para casamentos e funerais porque é aí que a vida acontece.
Com o eclodir da guerra dos Balcãs, Goran Bregović forma em 1991 a Wedding and Funeral Band (Orquestra para Casamentos e Funerais). O nome reflete a essência balcânica: a mesma música serve tanto para celebrar a vida como para chorar os mortos. Durante o cerco de Sarajevo (1992-95), tocou em casamentos e funerais reais, salvando músicos ciganos bósnios da morte.
O som de Bregović é, pois, um banquete de núpcias no fim do mundo. Há metais balcânicos que empurram o sangue para cima, vozes femininas búlgaras que parecem vir de outro século, percussão que não deixa escolha, harmonias que são simultaneamente sagradas e pagãs. Tradições ortodoxas, klezmer, sevdah bósnio e punk global.
Ele próprio gosta de dizer que compõe música para funerais e casamentos — ou seja, para os momentos em que a vida exige mais do que palavras. A sua Wedding and Funeral Band não é um ensemble, “é uma pequena Jugoslávia em palco”.
Lura
24 de outuro de 2024. Angélique Kidjo, diva maior da música africana, celebra 40 anos de carreira no Auditório da Gulbenkian. Lura é a convidada especial deste espetáculo onde impõe a sua carismática presença em “Carnaval de São Vicente”. Num final incendiário, a cantar a duas vozes o inevitável “Pata Pata” de Miriam Makeba, entre a audiência, encontra Anabela na plateia e leva-a para cima palco para terminar esta celebração da música africana em apoteose.
Lura é fogo. É sangue vulcânico. Uma presença magnética em palco. Dança com fúria alegre, confidencia histórias de bairro, puxa o público para a roda crioula. É Lisboa, Paris e São Vicente. É morna, fado, coladeira, funaná, batuque rebelde da diáspora, afropop, bossa nova, identidade plural tão bem espelhada no álbum Multicolor (2023). Disco que inclui um dueto com Kidjo (Cetam), onde as tradições cabo-verdianas surgem com novas texturas, pintadas com novas tonalidades, como se cada faixa fosse uma ilha diferente do mesmo arquipélago emocional. Entre mensagens de autoestima como Preta (eco de Black Lives Matter).
Adolescente corista nos anos 90, Lura saltou para o estrelato com In Love (2002) e explodiu com Di Korpu Ku Alma (2005), onde Na Ri Na se tornou hino global de alegria crioula. Sete álbuns depois, Lura representa, uma das formas mais luminosas de cantar a diáspora cabo-verdiana com respeito pela raiz e coragem de a reinventar. Num tempo em que as identidades se cruzam e se questionam, a sua música mostra que se pode ser de muitos lugares sem perder o centro.
Quando venera Cesária, a “sodade” é real, tem peso, tem textura, tem o cheiro específico de uma ausência que não se resolve.
No Festival MED assinala uma carreira com 30 anos de atividade que deu várias voltas ao mundo com uma bagagem densa.
Tangomotán
Desde o início que o MED foi um festival que sempre acolheu outras músicas para além das provenientes da extensa bacia do Mediterrâneo. A quarta edição de 2007 encerrou com a formação argentina Bajofondo Tango Club do mestre Gustavo Santaolalla.
19 anos depois, o MED recebe um novo coletivo de eletrotango que evoca estas e outras boas memórias como as de Gotan Project.
Tangomotán é um quarteto parisiense, formado em 2016, que reinventa o tango como música de hoje: fusão visceral de tradição argentina, formação clássica europeia e impulsos electrónicos dançantes. É o tango aumentado (e não eletrotango) como eles bem gostam de referir.
Constituído por músicos exímios de formação clássica nos conservatórios de Paris (CRR, CNSM) e Gennevilliers, como Blanche Stromboni (contrabaixo), Marion Chiron (bandoneon), Robin Apparailly (violino) e Leandro Lacapère (piano), este ensemble transforma o palco num laboratório de tango vivo, acessível e electrizante.
A sonoridade dos Tangomotán funde o tango raiz com bandoneon, violino, piano e contrabaixo a elementos eletrónicos (como loops e distorções). Partindo de melodias tradicionais, amplificam ritmos e improvisações, ecoando os pioneiros do tango eletrónico, mas com um toque operário e humanista, sempre centrado na dança e na energia viva do género. O álbum Motán (2024) e o mais recente L’Étreinte (2026) são a demonstração mais cabal desta alquimia: música que sabe de onde vem e não tem medo de não saber para onde vai.
Ao vivo, vestem o bleu de travail para um visual cru e autêntico, entregando-se a performances viscerais de improvisação e fusão acústico-eletrónica. Dos palcos intimistas aos grandes festivais, hipnotizam com energia contagiante, transformando cada concerto numa milonga moderna e universal.
Para os Tangomotán, o tango não é um género do passado encerrado em si mesmo, é uma linguagem viva, capaz de absorver o presente sem perder o carácter.
Arooj Aftab
Há vozes que chegam de um lugar difícil de situar no mapa. A de Arooj Aftab é uma delas. Nascida em Lahore, no Paquistão, criada entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos, ela é filha de uma geografia interior tão vasta quanto contraditória. É precisamente dessa tensão que nasce a sua música.
Cresceu rodeada pelo canto devocional islâmico, pela poesia clássica urdu que os avós recitavam como quem reza, e pela música pop que chegava por canais menos esperados. Nada disso se perdeu. Tudo ficou, a sedimentar, à espera de forma. Em criança, foi uma autodidata curiosa, fascinada pelas gravações de Nusrat Fateh Ali Khan, Abida Parveen e Mehdi Hassan. Na adolescência, começou a reinterpretar clássicos do ghazal e do qawwali com uma subtileza que rompia convenções.
Mais tarde, quando chegou ao Berklee College of Music, em Boston, encontrou a linguagem técnica para o que já trazia dentro. Encontrou também o jazz modal, a música minimalista, a eletrónica ambiental e a composição moderna.
O que emergiu desse percurso é uma obra que desafia qualquer prateleira. Os seus álbuns, em particular Vulture Prince, lançado em 2021 e dedicado ao irmão que perdeu demasiado cedo, são objetos de rara densidade emocional. Neles, o ghazal e o sufi qawwali encontram arranjos de cordas que parecem respirar, camadas electrónicas que funcionam como névoa, e uma voz que não força nunca, que não se compete com nada, mas que ocupa tudo.
Em 2022, o Grammy de Melhor Performance Global, a curiosidade de Barack Obama incluir a canção Mohabbat na sua playlist de verão, veio confirmar o que os ouvintes mais atentos já sabiam: Arooj Aftab não é uma promessa. É uma presença.
Desde então, Aftab tem colaborado com figuras como Vijay Iyer, Shahzad Ismaily ou Meshell Ndegeocello, construindo pontes entre o jazz espiritual, o neoclássico e as raízes sufi. O trio Love in Exile (2023) consolidou essa estética de improvisação contemplativa. Música como respiração partilhada.
Night Reign (2024) confirmou que o prémio não tinha sido um acidente. Era apenas o mundo a pôr-se a par do que ela já fazia.
A sua identidade sonora é feita de paradoxos produtivos: é antiga e contemporânea, é íntima e cósmica, é contida e absolutamente devastadora. Ouvir Arooj é aceitar ser conduzido a um tempo que não é bem o nosso. Um tempo suspenso, onde a dor e a beleza coexistem sem se anularem.
No MED apresentará um espetáculo que é ao mesmo tempo ritual e confidência.
Natacha Atlas
Nos anos 90, quando o panorama musical global começava a abrir-se às fusões e às identidades híbridas, surge uma voz que desafia fronteiras: Natacha Atlas. Símbolo maior de uma geração que procurou unir o Oriente e o Ocidente. Da eletrónica urbana de Londres aos ecos melismáticos do Cairo antigo, a sua música foi e continua a ser um território onde culturas se tocam, dialogam e se reinventam.
Filha de pai de origem árabe (com raízes egípcias, marroquinas e palestinianas, e alguma ascendência sefardita) e mãe inglesa, Natacha cresceu entre Bruxelas e o Reino Unido, movendo-se entre mundos com naturalidade. A descoberta artística dá-se em plena década de 1990, no epicentro multicultural de Londres, através da editora Nation Records, bastião das fusões ousadas entre eletrónica, dub e música árabe. Foi também aí que se cruzou com os Transglobal Underground, coletivo que lhe abriu as portas (e com quem continua a atuar) de uma imaginação sonora sem limites. Essa colaboração inaugurou a sua assinatura: uma alquimia de máquinas e maqams, sintetizadores e derbakes, beats e baladi.
Da estreia a solo com Diaspora (1995) a discos como Gedida (1999) ou Ayeshteni (2001), Atlas construiu um percurso coerente e aventureiro. A sua voz transita livremente entre dialetos árabes, inglês e francês; funde a tradição vocal egípcia de Umm Kulthum com o impulso cosmopolita do trip-hop e da música eletrónica. Colaborou com mestres como Nitin Sawhney, Jean-Michel Jarre, ou Ibrahim Maalouf, e soube reinventar-se em direção a uma sonoridade mais acústica, de câmara, onde o alaúde e o violino árabe convivem com o contrabaixo e o piano.
A música de Natacha Atlas é, acima de tudo, um lugar de pertença plural. A sua voz, quente e translúcida, atua como ponte entre continentes e tempos históricos. Cada canção é uma travessia: do Magrebe ao Levante, da melancolia andaluza à vibração eletrónica, da espiritualidade sufi ao desejo pop.
Nove anos depois de ter atuado no Ciclo Mundos do Teatro da Trindade, Natacha Atlas regressa a Portugal com uma maturidade luminosa. A sua voz continua a exalar o mesmo poder hipnótico, agora mais depurado, mais sábio. Acompanhada por músicos que se movimentam entre a improvisação jazzística e o fraseado árabe clássico, a artista transforma o concerto num ritual sensorial: ancestral e futurista, íntimo e universal.



