A utilização da luz com finalidade terapêutica vem ganhando espaço em diferentes áreas da saúde. Entre essas tecnologias está o ILIB — Intravascular Laser Irradiation of Blood, uma modalidade de fotobiomodulação sistémica investigada principalmente por seus possíveis efeitos sobre inflamação, stress oxidativo, circulação e metabolismo celular.
Embora tenha se tornado bastante popular nos últimos anos, compreender corretamente o que é o ILIB, como ele funciona e quais benefícios já possuem respaldo científico é fundamental para que a técnica seja utilizada de maneira responsável.
O que é ILIB?
O ILIB surgiu originalmente como uma técnica em que uma fibra óptica era inserida por via intravenosa para irradiar diretamente o sangue com laser de baixa potência.
Posteriormente, foram desenvolvidas abordagens não invasivas nas quais a luz é aplicada externamente sobre vasos sanguíneos superficiais, especialmente sobre a artéria radial, localizada na região do punho.
Na literatura científica mais atual, esta última abordagem é denominada fotobiomodulação vascular transcutânea — VPBM (Vascular Photobiomodulation), embora comercialmente ainda seja frequentemente chamada de “ILIB” ou “ILIB modificado”. (PubMed)
A técnica faz parte do conceito de fotobiomodulação (PBM), que utiliza luz em comprimentos de onda específicos e em baixa intensidade para produzir respostas biológicas sem provocar aquecimento ou destruição dos tecidos.
Como a fotobiomodulação age no organismo?
A ação da fotobiomodulação está relacionada principalmente à interação da luz com estruturas celulares capazes de absorver energia luminosa.
Entre os mecanismos propostos está a influência sobre a atividade mitocondrial, especialmente sobre componentes da cadeia respiratória celular. Como consequência, podem ocorrer alterações na produção de ATP — a principal molécula energética utilizada pelas células — e na sinalização celular.
Também são estudadas alterações relacionadas a:
- produção de óxido nítrico;
- microcirculação;
- metabolismo energético;
- espécies reativas de oxigénio;
- mecanismos antioxidantes;
- mediadores da resposta inflamatória.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 avaliou estudos sobre ILIB e encontrou alterações em citocinas relacionadas à resposta inflamatória e aumento de óxido nítrico. Entretanto, apenas seis estudos preencheram os critérios da revisão, demonstrando que a evidência disponível ainda é limitada. (PubMed)
O ILIB realmente ajuda a “desinflamar” o organismo?
A expressão “desinflamar o corpo” é bastante utilizada popularmente, porém cientificamente é mais apropriado falar em modulação da resposta inflamatória.
Uma revisão publicada em 2025 analisou oito ensaios clínicos randomizados, envolvendo 340 participantes. Os trabalhos avaliaram diferentes condições clínicas e encontraram resultados relacionados à redução de marcadores como IL-6 e TNF-α, diminuição de marcadores de stress oxidativo, redução de dor e melhoria de alguns indicadores de qualidade de vida. Não foram relatados eventos adversos graves nesses estudos. (PubMed)
Isso não significa, entretanto, que o ILIB funcione como uma espécie de “detox” capaz de neutralizar os efeitos de uma alimentação rica em açúcar, excesso de sal, álcool ou produtos ultraprocessados.
A fotobiomodulação deve ser entendida como terapia complementar. Sono adequado, alimentação equilibrada, atividade física, hidratação e tratamento das alterações metabólicas continuam sendo fundamentais para o controlo da inflamação sistémica.
Principais benefícios estudados
Os estudos disponíveis sugerem que a fotobiomodulação vascular pode estar relacionada a:
Modulação da inflamação
Algumas pesquisas demonstramalterações de citocinas pró e anti-inflamatórias.
Redução do stress oxidativo
A técnica vem sendo investigada pela capacidade de modular mecanismos envolvidos na produção e neutralização de espécies reativas de oxigénio.
Microcirculação e função vascular
O óxido nítrico participa da regulação vascular e alguns estudos sugerem que sua disponibilidade pode ser influenciada pela fotobiomodulação.
Metabolismo e função mitocondrial
A PBM é estudada pela capacidade de modificar processos associados à produção de energia celular.
Dor e recuperação tecidual
A fotobiomodulação possui aplicações estudadas em diferentes condições relacionadas à dor e reparação de tecidos.
Apesar desses resultados, uma revisão integrativa publicada em 2025, que reuniu 37 trabalhos sobre ILIB e fotobiomodulação vascular, concluiu que as diferenças entre protocolos, parâmetros dos aparelhos e metodologias ainda impedem afirmar categoricamente sua eficácia para todas as aplicações propostas. (PubMed)
Para quem o ILIB pode ser indicado?
A literatura investiga a fotobiomodulação sistémica como terapia complementar em diferentes situações relacionadas a:
- processos inflamatórios;
- stress oxidativo elevado;
- alterações circulatórias;
- determinadas condições metabólicas;
- condições musculoesqueléticas e dolorosas;
- recuperação e reparação tecidual.
A indicação deve sempre considerar a condição individual, os parâmetros do equipamento, a formação do profissional e a legislação que regulamenta a utilização do dispositivo.
É importante reforçar que ILIB ou VPBM não substituem diagnóstico médico, medicamentos prescritos ou tratamentos específicos para doenças sistémicas.
Contraindicações e cuidados
A literatura científica ainda não apresenta uma lista universal e definitiva de contraindicações específicas para ILIB/VPBM. Revisões sobre a técnica apontam justamente a necessidade de estudos mais robustos para definir melhor protocolos, dosimetria, segurança em longo prazo e indicações clínicas. (PubMed)
Por isso, antes da aplicação devem ser avaliados fatores como:
- utilização de medicamentos ou substâncias fotossensibilizantes;
- doenças ou condições sistémicas relevantes;
- alterações hematológicas importantes;
- gravidez, devido à limitação de estudos específicos;
- condições oncológicas ativas ou em acompanhamento, que exigem avaliação individualizada;
- presença de alterações cutâneas no local onde o equipamento será aplicado;
- sensibilidade individual e características específicas do equipamento.
A utilização de proteção ocular adequada e o cumprimento dos parâmetros recomendados para cada dispositivo também são fundamentais.
Um consenso internacional publicado em 2025 considera a fotobiomodulação, dentro de parâmetros apropriados, uma modalidade geralmente segura e destaca que a luz vermelha utilizada em PBM não demonstrou induzir dano ao DNA. (PubMed)
Quanto tempo dura uma sessão?
Não existe um tempo universal de aplicação para todas as modalidades e equipamentos.
Entretanto, protocolos de 30 minutos são bastante encontrados em pesquisas queutilizam aplicação transcutânea sobre a artéria radial.
Um estudo com 28 mulheres, por exemplo, utilizou laser vermelho de 660 nm e 100 mW durante 30 minutos sobre a artéria radial. Os pesquisadores identificaram modificações em alguns metabólitos plasmáticos após a aplicação, embora tenham ressaltado que o impacto geral sobre o metaboloma foi pequeno e que novas pesquisas são necessárias. (PubMed Central (PMC))
O tempo, frequência e número total de sessões, entretanto, não devem ser copiados de maneira automática, porque comprimento de onda, potência, energia, área irradiada e objetivo terapêutico interferem diretamente na dose recebida.
Fotobiomodulação é uma terapia dependente de dose.
E QUAL A RELAÇÃO ENTRE ILIB E SAÚDE CAPILAR?
Este é um ponto particularmente interessante para a tricologia.
O folículo piloso é uma estrutura metabolicamente ativa e extremamente sensível às condições do organismo.
Inflamação, stress oxidativo, alterações metabólicas, deficiências nutricionais, alterações hormonais, stress psicológico e algumas doenças sistémicas podem interferir no ciclo capilar.
Nesse contexto, uma terapia capaz de modular determinadas vias inflamatórias e oxidativas pode teoricamente ser interessante como coadjuvante dentro de um protocolo tricológico global.
Entretanto, existe uma diferença científica muito importante:
ILIB/VPBM não é a mesma coisa que aplicar fotobiomodulação diretamente no couro cabeludo.
As evidências atualmente disponíveis para crescimento capilar são muito mais robustas para a fotobiomodulação local do couro cabeludo (LLLT/PBM) do que para ILIB.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 avaliou 38 estudos e 3.098 pacientes. Entre os pacientes com alopecia androgenética, a fotobiomodulação de baixa intensidade aplicada diretamente para tratamento capilar produziu aumento significativo da densidade dos fios quando comparada ao placebo. (PubMed)
Outra meta-análise envolvendo 15 estudos e 795 pacientes também encontrou aumento significativo da densidade capilar com fotobiomodulação em indivíduos com alopecia androgenética. (PubMed)
Uma revisão sistemática anterior igualmente demonstrou resultados favoráveis tanto em homens quanto em mulheres com alopecia androgenética. (PubMed)
Portanto, atualmente podemos afirmar que existe evidência clínica razoável para fotobiomodulação aplicada diretamente no couro cabeludo na alopecia androgenética.
Por outro lado, ainda não existem evidências clínicas suficientes para afirmar que o ILIB isoladamente seja capaz de provocar crescimento capilar ou tratar alopecias.
Essa diferenciação é essencial.
Como o ILIB pode ser inserido dentro de um protocolo tricológico?
Em vez de considerá-lo um tratamento isolado contra queda de cabelo, uma abordagem mais coerente é utilizá-lo, quando indicado, como parte de uma estratégia integrativa.
O protocolo pode envolver:
avaliação detalhada do couro cabeludo e dos fios;
tricoscopia;
investigação da provável causa da queda;
fotobiomodulação diretamente no couro cabeludo;
tratamentos específicospara equilíbrio da microbiota e oleosidade;
terapias voltadas à barreira cutânea;
orientação nutricional e médica quando necessária;
e fotobiomodulação sistémica como terapia complementar em pacientes criteriosamente selecionados.
A escolha dependerá do diagnóstico ou da hipótese tricológica.
Eflúvio telógeno, alopecia androgenética, alopecia areata, alterações inflamatórias e doenças cicatriciais são condições completamente diferentes e não devem receber um protocolo único simplesmente porque todas apresentam queda de cabelo.
Luz como aliada, e não como solução isolada
A fotobiomodulação representa uma das áreas mais interessantes da terapêutica contemporânea e possui mecanismos biológicos plausíveis e um corpo científico crescente.
Entretanto, ciência também significa reconhecer os limites da evidência.
Até o momento, estudos sobre ILIB e fotobiomodulação vascular demonstram resultados promissores principalmente em mecanismos associados à inflamação, stress oxidativo e função celular, mas ainda existe grande heterogeneidade de protocolos e necessidade de ensaios clínicos maiores e padronizados.
Na saúde capilar, as evidências são mais consistentes para a aplicação de fotobiomodulação diretamente no couro cabeludo, especialmente na alopecia androgenética.
Por isso, a verdadeira evolução da tricologia não está simplesmente em utilizar mais tecnologias, mas em saber por que, quando e para quem cada tecnologia deve ser utilizada.
A terapia deve estar sempre baseada em avaliação individualizada, conhecimento do ciclo capilar, compreensão das alterações sistémicas e utilização consciente das ferramentas disponíveis.
Referências científicas selecionadas
Díaz L. et al. The clinical efficacy of intravascular laser irradiation of blood (ILIB): A narrative review of randomized controlled trial. Photodiagnosis and Photodynamic Therapy. 2025. PMID: 40324571. (PubMed)
Brassolatti P. et al. Systemic photobiomodulation: an integrative review of evidence for intravascular laser irradiation of blood and vascular photobiomodulation. Lasers in Medical Science. 2025. PMID: 39847118. (PubMed)
Influence of Intravascular Laser Irradiation of Blood (ILIB) on inflammatory cytokines and nitric oxide in vivo: a systematic review. 2024. PMID: 38433159. (PubMed)
Maghfour J. et al. Evidence-based consensus on the clinical application of photobiomodulation. Journal of the American Academy of Dermatology. 2025;93(2):429–443. PMID: 40253006. (PubMed)
Low-Level Laser and LED Therapy in Alopecia: A Systematic Review and Meta-Analysis. Dermatologic Surgery. 2024. PMID: 39404126. (PubMed)
Gupta AK, Bamimore MA. Factors influencing the effect of photobiomodulation in the treatment of androgenetic alopecia: A systematic review and analyses of summary-level data. Dermatologic Therapy. 2020;33(6):e14191. (PubMed)

Coluna de saúde/beleza Fabiana Fukuda tricologista e cabeleireira



