Serão 3 artistas nacionais que se apresentarão no Festival MED’26 em Loulé. Conheça a história deles.
Expresso Transatlântico
Há uma Lisboa que não cabe num postal. Que não se explica em verso de saudade nem em cartão turístico. É mestiça, em contante movimento, aberta ao Mediterrâneo, ao Atlântico e ao resto do mundo. A partir desta Lisboa, os Expresso Transatlântico transformam a guitarra portuguesa em personagem principal de um filme sonoro que tanto cabe num clube intimista, como num grande festival de rock ou de músicas do mundo.
No centro do trio está Gaspar Varela, guitarrista português de exceção e bisneto da histórica fadista Celeste Rodrigues, herança que garante uma linha direta à casa de fado e ao património de Amália. Ao lado, o irmão Sebastião Varela assume a guitarra elétrica e Rafael Matos a bateria, deslocando o fado para um território onde a tradição dialoga, sem reverência cega, com a cidade de hoje. Não vêm “evangelizar” o fado, como gostam de sublinhar; vêm antes provar que o ADN fadista pode sobreviver e florescer fora das fronteiras do género.
Depois de um EP de estreia apresentado na WOMEX de 2022 (a maior feira de músicas do mundo), lançam em 2023 o álbum Ressaca Bailada. Obra descrita pela crítica como um “baile de beleza e fúria com saudades do futuro”, onde o fado se cruza com rock, blues, funaná, samba e ecos do cinema de western à portuguesa, entre referências que vão de Dead Combo a Zeca Afonso.
Em palco, o Expresso Transatlântico é uma outra coisa. A música ganha corpo, urgência, uma fisicalidade que os registos gravados apenas anunciam.
Ao MED trazem o segundo e novo álbum que saiu em janeiro deste ano. Trópico Paranóia, produzido por Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), assume mais risco e tensão, olhando de frente para um mundo em decadência, sem perder a pulsação festiva que a define.
Num tempo em que se levantam muros e se desconfia da mistura, os Expresso Transatlântico respondem com um baile humanista. A sua diversidade é riqueza, não ameaça.
Fidju Kitxora
Fidju Kitxora é um corpo em movimento entre Lisboa e Cabo Verde: um coletivo enigmático que transforma a pista de dança em laboratório de memória e futuro. Da rave de funaná às batidas afrohouse, passando por semba e kuduro.
“Fidju Kitxora” significa “filho que chora” em crioulo, imagem perfeita para um projeto nascido do luto e da saudade de uma terra que, durante anos, só existiu na imaginação. Depois da morte da avó, André “Xina” Coelho (filho de pai português e mãe cabo-verdiana) parte para Cabo Verde, caminha centenas de quilómetros a pé entre ilhas e famílias, grava vozes, ruídos, celebrações e silêncios, e percebe que quer devolver em música o amor recebido.
Sobre essa matéria-prima, constrói uma arquitetura sonora que não pede licença a nenhum género: o funaná torrencial e indomável de Cabo Verde, com o seu ferrinho e acordeão (como em Lobu na Sukuru, com a participação de Scúru Fitchadú), enreda-se com o semba angolano, o kuduro, a afrohouse, a ecos de techno e (outras) experimentações eletrónicas, sempre atravessados por gravações de campo. Dessa alquimia, nasceu Racodja, álbum de estreia lançado em 2024.
Em palco, o anonimato parcial (rosto oculto, foco na performance de corpo inteiro), transforma o concerto numa espécie de arquivo vivo: luz, dança e som conspiram para que o público se perca na multidão ao mesmo tempo que reencontra perguntas antigas sobre pertença e identidade.
Com o álbum de estreia Racodja a abrir portas e o novo single Simbron a anunciar um segundo álbum previsto para 2026, o Fidju Kitxora está num momento de viragem. O MED recebe um organismo vivo em mutação contínua, a prometer que a próxima paragem será ainda mais profunda nessa viagem pela pós‑diáspora.
Sérgio Godinho
Sérgio Godinho não tem género. Tem universo. As suas canções têm imensas vidas. Imensos arranjos. Habitam ao mesmo tempo o bar e a biblioteca, a estrada e a praça pública. São letras que se lembram, melodias que insistem. E ao vivo, tudo isso ganha uma dimensão diferente: ele é um dos raros artistas capazes de fazer uma sala grande sentir-se íntima. Godinho é, pois, um cartógrafo de geografias afetivas, onde cada tema é um porto de escala diferente, mas a língua portuguesa é sempre o cais de partida.
Nos últimos anos, Sérgio Godinho, com a excelsa formação os Assessores e com outros cúmplices, tem revisitado o seu reportório ao vivo, que desconstroem e reimaginam clássicos como “Liberdade”, “Os Conquistadores” ou “Homem dos Sete Instrumentos”, como se cada concerto fosse um laboratório de arranjos e humores.
Ao longo do tempo, foi incorporando jazz, ritmos urbanos, texturas eletrónicas, ecos de música brasileira e atlântica, mantendo sempre a palavra no centro: histórias em formato de canção, com personagens, ângulos inesperados e uma ironia que nunca se divorcia da ternura.
Registos recentes, como o projeto ao vivo Sérgio vezes três, mostram-no em diálogo próximo com o público, misturando delicadeza acústica, pulsação rítmica e uma permanente disponibilidade para ouvir o tempo presente e comentá‑lo em palco.
Há uma generosidade na sua presença em palco, uma entrega sem artifício, que transforma o concerto numa conversa longa e necessária entre ele e quem o ouve.
Em tempos de ruído rápido e memória curta, Sérgio Godinho e os músicos que o acompanham, lembram-nos que a canção pode ser lugar de amor (Às Vezes O Amor ainda está bem vivo), de encontro, pensamento e dança ao mesmo tempo. É urgente vê-lo em palco porque cada concerto é uma aula viva de como a música portuguesa dialoga com o mundo sem perder o sotaque, abrindo janelas para outras geografias sonoras, sem fechar a porta de casa.
Em 2026, chega com a energia de quem prepara um novo disco de canções inéditas onde essa identidade sonora madura, entre a crónica e o sonho, entre a ferida e a festa, se renova mais uma vez, alimentada por décadas de estrada.


